Saúde / Mundo 19 de setembro de 2019 08h34

Crianças precisam de bem-estar mental tanto quanto você; quase 2 milhões têm depressão

Segundo ela, o governo da Inglaterra identificou, durante uma pesquisa, que um em cada oito alunos sofrem de algum tipo de transtorno emocional ou comportamental...

A relação da criança com os pais e com a escola afetam o seu bem-estar mental e, claro, refletem no seu desempenho (Foto: Getty Creative)
A relação da criança com os pais e com a escola afetam o seu bem-estar mental e, claro, refletem no seu desempenho (Foto: Getty Creative)

O bem-estar mental se tornou pauta no dia a dia, e é praticamente impossível passar pelo feed do Instagram sem ver pelo menos um post sobre o assunto. Mas será que o público da rede social é o único que precisa desse tipo de cuidado? Na verdade, vemos que a atenção com a saúde mental tem começado cada vez mais cedo - e, claro, por um motivo.

Cassia Parmeggiani é professora de yoga e idealizadora do projeto Pequenos Yogis. Especializada em yoga para crianças e sua inclusão na educação básica, ela explica que por mais de 15 anos se dedicou à formação de crianças e jovens.

Depois se tornar instrutora de yoga, percebeu a importância de se voltar aos pequenos para difundir os benefícios da prática. A ideia do projeto, aliás, é justamente mostrar para pais e professores novas alternativas para o desenvolvimento infantil.

Segundo ela, o governo da Inglaterra identificou, durante uma pesquisa, que um em cada oito alunos sofrem de algum tipo de transtorno emocional ou comportamental.

Nos Estados Unidos, os relatórios do Centro de Controle e Prevenção de Doenças diz que mais de 4 milhões de crianças com idade entre 3 e 17 anos foram diagnosticadas com ansiedade - e quase dois milhões sofrem de depressão.

Por aqui, os números não são mais animadores. De acordo com um relatório do Programa de Avaliação Internacional de Estudantes (ou PISA, na sigla original em inglês), os estudantes brasileiros não vão bem. Eles são os que ficam mais estressados durante os estudos, com 56% dos alunos relatando esse problema no questionário. Além disso, as crianças do Brasil ficam em segundo lugar no ranking das mais ansiosas antes de uma prova, mesmo quando se preparam para ela.

"Devido ao aumento das pesquisas em relação a seus benefícios, essas práticas, antes vistas como alternativas, estão ganhando espaço no processo de desenvolvimento infanto-juvenil, beneficiando milhões de pessoas em todo o mundo e contribuindo para uma sociedade mais equilibrada e, porque não dizer, feliz", explica Cassia. "Eles não estão somente aprendendo a relaxar, mas a ter mais atenção, foco e a gerir suas emoções".

A professora diz que essas práticas, como a yoga e a meditação, impactam diretamente o comportamento dos alunos, os seus relacionamentos e até no rendimento escolar. Para ela, a longo prazo a adoção dessas práticas também tem um impacto positivo, já pode ajudar na reversão do quadro altamente ansioso e depressivo que vemos hoje no mundo.

"Se desde cedo eles forem estimulados no sentido do auto-conhecimento, da gestão das emoções, e aprenderem técnicas que ajudem a lidar com o estresse e outras situações negativas comuns a nossa existência, de maneira mais equilibrada, essa e as gerações futuras padecerão menos destes problemas".

Educação emocional é tendência no futuro

Eventos de inovação e tecnologia - como o HackTown, que aconteceu na primeira semana de setembro em Santa Rita do Sapucaí, Minas Gerais -, têm reforçado a importância de uma educação que prepare as crianças de hoje para um futuro altamente tecnológico. E, acredite, isso inclui a educação emocional.

Para Cassia, o Brasil ainda está atrasado em relação ao tema. "Precisamos dar mais espaço e visibilidade a este assunto para que a partir desta difusão, nossas crianças e jovens possam se beneficiar destas práticas".

De fato, já existem estudos que comprovam como o desenvolvimento da inteligência emocional - isto é, a capacidade de reconhecer, avaliar e lidar com os próprios sentimentos -, tem um impacto direto na produtividade dos alunos.

Um relatório feito pela Collaborative for Academic, Social, and Emotional Learning (CASEL), nos Estados Unidos, comprovou que crianças que receberam educação emocional de qualidade tiraram notas até 11% acima da média daqueles que não tiveram as mesmas instruções.

Ainda segundo o mesmo estudo, chegou-se à conclusão que a estabilidade emocional é a característica mais relacionada à sensação de satisfação com a vida entre os adolescentes.

"Através dessas práticas, podemos trabalhar foco, concentração, relaxamento, conhecermos mais sobre nós mesmos, nossas sensações, emoções e principalmente como lidamos com elas, tornando-nos plenamente conscientes do aqui e agora", diz a instrutora.

Todo esse ciclo de desenvolvimento pessoal e afetivo afeta diretamente a motivação que a criança tem em aprender, já que a sua relação com o ambiente escolar, a construção do seu autoconceito (o conceito que ela tem de si mesma) e da sua autoestima refletem na sua relação com os estudos.

"Podemos dizer que a autoestima em um grau elevado torna-se essencial para que o aluno tenha predisposição em aprender conteúdos que sejam motivadores e contextualizados, sinta-se capaz de aprender estes conteúdos e tenha sucesso em seu desempenho", diz Ingrid Goes Lobato Franco, pedagoga, pós-graduada em gestão de pessoas e que há mais de 10 anos atua na elaboração do material didático de Língua Pátria do Kumon.

Bem-estar mental e a relação com a escola

"Se a criança ingressa na escola com uma visão negativa de si e se comporta de maneira diferente da maioria de seus colegas, muitas vezes, é considerada um 'aluno-problema' por não ter um bom desempenho escolar", continua Ingrid.

Mas esse quadro comportamental envolve uma série de fatores, como a relação do professor com o aluno, o seu autoconceito e o quanto a criança se vê capaz de resolver as situações-problema que lhe são apresentadas. Esse conjunto de premissas pode gerar, na criança, uma sensação de ansiedade e mal-estar social que é refletido em comportamentos disruptivos.

"Cabe então ao professor adotar novas metodologias e adequar a tarefa às possibilidades de seu aluno, fornecendo meios para que ele realize a atividade e motivando-o para que ele confie em sua capacidade, promovendo assim o resgate de sua autoestima", diz.

O mais importante, talvez, seja entender que aprender vai além da capacidade intelectual de alguém. Ele depende da forma como esse alguém se relaciona com os seus pares, seus professores e como se sente e percebe o ambiente escolar.

"Neste processo de inter-relação, o comportamento do professor em sala de aula, através de suas intenções, crenças, valores, sentimentos e desejos, afeta cada aluno individualmente. Alguns estudos apresentam que a interpretação dos alunos a respeito do comportamento de seus professores é centrada na natureza afetiva dos mesmos, além de influenciar seu processo de aprendizagem", explica a pedagoga.

Melhorar essa relação nas escolas - de forma que isso se estenda também ao ambiente familiar -, ainda não é prioridade por aqui. Cassia reforça que atividades como o yoga e a meditação são aplicadas nas escolas como atividades extra-curriculares, e não como parte do currículo, na maior parte das vezes.

"Em países da Europa e em muitas escolas nos Estados Unidos, já vemos que, além das matérias já existentes no currículo, muitas delas estão inserindo atividades voltadas à atenção plena e a educação emocional, através de práticas meditativas e exercícios de respiração, a rotina diária dos alunos", comenta.

É claro que esse trabalho não é exclusivo da escola. Segundo Ingrid, a família é o primeiro grupo social com o qual a criança tem contato e, muitas vezes, o seu comportamento é um reflexo daquilo que ela aprende em casa. É o conjunto dessas duas instituições que tem o poder de ajudar a criança a crescer com mais bem-estar mental.

"A escola em parceria com a família tem papel fundamental no processo de desenvolvimento da criança em todos os aspectos, inclusive o afetivo. Por esta razão a relação da criança com seus pais, seus pares e professores deve ser guiada por bons sentimentos e respeito, para que assim a construção do autoconceito e da autoestima seja positiva e a aprendizagem aconteça de maneira significativa", diz a profissional.

Ingrid explica, por fim, que toda criança já tem dentro de si a capacidade de cuidar das próprias emoções e manter o foco necessário para o aprendizado correto, no seu próprio ritmo. Resta, no entanto, oferecer à essas crianças estímulos que sejam positivos o suficiente para que ela aprenda a lidar com o que sente de forma produtiva - seja através do yoga, da meditação ou de técnicas de atenção plena - para crescer tanto com uma autoestima compatível com as suas capacidades e habilidades quanto com discernimento para respeitar a si mesma e aos outros ao seu redor.

Com informações: Yahoo.

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