Tecnologia / Mundo 20 de julho de 2018 09h53

Facebook não está preparado para enfrentar fake news, diz Zuckerberg

Ele disse que a rede social não tinha mecanismos para lidar com as notícias falsas durante a eleição americana em 2016...

O presidente-executivo do Facebook, Mark Zuckerberg, disse que a rede social não tinha mecanismos para lidar com as notícias falsas durante a eleição americana em 2016 e revelou que só no fim de 2019 a plataforma estará completamente pronta para enfrentar a disseminação de boatos e as novas ameaças de segurança.

"Acho que levará cerca de três anos para adaptar tudo no Facebook para estarmos prontos para todos os problemas de conteúdo e segurança. A boa notícia é que já estamos há cerca de um ano e meio [fazendo isso]", afirmou, em entrevista divulgada nesta quarta-feira (18) pelo site de tecnologia Recode.

Na entrevista de 1h30, Zuckerberg criticou a possibilidade de regulação do setor de tecnologia, reclamou da política de imigração de Donald Trump e deu mais detalhes da ação russa na eleição presidencial americana.

Moscou é acusado pelas agências de segurança dos EUA de ter tentado influenciar a votação a favor de Trump tanto roubando dados de políticos democratas quanto por meio da distribuição de notícias falsas. O governo de Vladimir Putin nega participação no caso.

Zuckerberg disse que o Facebook conseguiu identificar antes da votação ações para tentar invadir contas de dirigentes dos partidos Democrata e Republicano e alertou o FBI (a polícia federal americana) sobre a atuação de grupos hackers da Rússia, mas que a disseminação de notícias falsas não era algo que estivesse no radar da empresa.

"Estávamos focados nos tipos tradicionais de hackers", afirmou ele. "Não há dúvida de que fomos lentos demais para identificar esse novo tipo de ataque."

"Pode apostar que agora esse é um grande foco de nosso esforço de segurança", disse o executivo, que frisou que a prioridade é impedir que a disseminação de fake news se repita em eleições importantes do mundo, como as do Brasil e da Índia. "Sabemos que precisamos acertar desta vez."

O criador da rede social disse que, para isso, a empresa investiu principalmente em inteligência artificial e na contratação de profissionais para analisar conteúdo, além da parceria com agências de checagem de fatos.

Ele confirmou também a informação divulgada na quarta-feira pelo próprio Facebook de que a rede social vai começar a apagar conteúdo falso que possa levar a casos de violência no mundo real, a exemplo do que tem ocorrido em alguns países da Ásia, como Índia e Mianmar -a repressão contra a minoria rohingya neste último foi citada nominalmente por Zuckerberg.

"É clara a responsabilidade de todos os participantes. O governo, a sociedade civil -e creio que tivemos um importante papel também."

Já perfis que distribuam notícias falsas e teorias da conspiração que não causem violência poderão continuar na plataforma, embora com alcance reduzido.

Zuckerberg, que é judeu, mencionou sites que negam a existência do Holocausto como exemplo de conteúdo que poderá continuar sendo publicado na rede social, embora ele tenha deixado claro que discorda pessoalmente deste tipo de discurso.

Segundo ele explicou, as notícias falsas não necessariamente serão retiradas da rede social -apenas caso preguem a violência ou o ódio contra determinado grupo. Já notícias identificadas pelos checadores como falsas perderão espaço na linha do tempo dos usuários, mas não serão removidas.

O executivo também assumiu sua culpa pelo caso da Cambridge Analytica, empresa britânica que teve acesso aos dados de milhões de usuários do Facebook. Parte dessas informações teria sido usada pela consultoria para ajudar na eleição de Trump.

No entanto, ele voltou a defender a resposta da empresa no caso e disse que agora todos os aplicativos que tiveram acesso aos dados dos usuários estão sendo auditados pelo Facebook.

Para Zuckerberg, o escândalo de vazamento de dados da Cambridge Analytica, combinado com a disseminação das notícias falsas e a interferência russa na eleição americana, fez o público mudar a forma como vê a rede social.

"Acho que as pessoas têm sido muito positivas e focadas em tudo de bom que vem com a tecnologia por um longo período de tempo. Ter um período em que as pessoas se concentrem em alguns dos usos negativos, e devemos ter certeza de que entendemos bem isso, acho que é completamente razoável", afirmou.

O executivo disse aceitar uma nova regulação sobre a circulação de conteúdo na internet, mas negou acusações de que o Facebook tenha virado um monopólio e criticou a possibilidade de dividir a empresa.

Segundo ele, caso companhias americanas como a própria rede social e a Amazon tenham de vender parte de seus ativos, isso abriria espaço para o crescimento de empresas de outros países, em especial chinesas.

"E elas não compartilham os valores que temos. Pode apostar que, se o governo [dos EUA] souber que há uma interferência eleitoral ou terrorismo, não acho que as empresas chinesas vão querer cooperar tanto e tentar ajudar o interesse nacional."

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