Agricultura / Brasil 04 de setembro de 2018 09h30

Collor reedita papel de pai dos pés-descalços e descamisados

Presidente entre 1990 e 1992, quando deixou o cargo após sofrer impeachment, Collor disputa o governo de Alagoas...

A chuva não dá trégua, mas Fernando Collor de Mello (PTC) abre os braços de forma expansiva, acena e sorri enquanto caminha por ruas enlameadas na periferia de Arapiraca, cidade do agreste alagoano.

No chão de uma praça, ele discursa para um público minguado. Mas empolga quem o acompanha quando dispara contra o governador Renan Filho (MDB), a quem chama de prepotente, metido a besta e menino de calças curtas.

Presidente entre 1990 e 1992, quando deixou o cargo após sofrer impeachment, Collor disputa o governo de Alagoas pela terceira vez ancorado numa campanha de perfil populista.

Numa reedição do "pai dos pés-descalços e descamisados", vende-se como um candidato sensível às demandas população mais pobre -sua principal proposta é a criação de uma espécie de Bolsa Família estadual focado em mulheres de baixa renda.

"Queremos fazer um governo com o povo para o povo, sobretudo o povo mais humilde que vem sendo perseguido e vitimado pelas injustiças praticadas pelo Palácio do governo", disse Collor em Arapiraca na noite de sexta (31).

Três décadas depois de fazer fama como "caçador de marajás", Collor abriu guerra contra o estado fiscalizador "que persegue comerciantes e fecha pequenos negócios com sua sanha arrecadatória". Sua promessa-símbolo é liberar as motos de até 50 cilindradas, as populares cinquentinhas, de taxas de licenciamento.

Seu objetivo é fazer um contraponto ao caráter tecnocrata da gestão Renan Filho, que tem no ajuste fiscal o seu principal cartão de visitas.

Em quatro anos de mandato, ele conseguiu reduzir dívida do estado de 160% para 90% da receita corrente líquida, ampliando a capacidade de investimento do governo. Ao mesmo tempo, sofreu críticas ao reduzir o alcance de programas sociais.

Disputando a reeleição amparado por uma coligação de 19 partidos, a maior do país, Renan Filho diz confiar em sua vitória e desdenha da estratégia do adversário.

"[Collor] tem um discurso fiscalmente irresponsável que não convence o cidadão nos dias de hoje. O discurso dele envelheceu", afirma o governador, que disputa a reeleição ao lado do pai, o senador Renan Calheiros (MDB).

Para manter-se à frente do governo, Renan Filho tem como trunfo o apoio do PT numa região onde o ex-presidente Lula tem alta popularidade.

No último sábado (1º), o governador recebeu Fernando Haddad em Maceió e prometeu apoio ao petista: "A tendência é de apoio ao Haddad. Não vamos discutir apoiar outro nome", disse o governador à reportagem no dia anterior.

O emedebista pôs na rua uma campanha com estrutura profissional e que aposta numa estratégia de "terra ocupada". Em caminhadas e carreatas, é acompanhado por um batalhão de cabos eleitorais.

Na quinta (30), num ato no bairro Santa Lúcia, periferia de Maceió, os cabos eleitorais dividiam-se em diaristas e mensalistas. Os diaristas, moradores do próprio bairro, formaram fila para receber R$ 20 por ter segurando bandeiras durante o ato.

Os mensalistas recebem um salário mínimo, dividido em duas parcelas, para trabalhar durante toda a campanha.

Os moradores ficaram praticamente alheios à campanha. Poucos arriscavam-se a sair de casa. Alguns foram até o governador para fazer cobranças, caso do ambulante Cícero dos Santos, que pediu o asfaltamento da sua rua.

A entrada de Collor na disputa foi estratégia de sobrevivência política: caso seja reeleito, Renan Filho é virtual candidato ao Senado em 2022, ano em que Collor disputaria a sua reeleição. Com um olhar no futuro, o ex-presidente antecipou uma separação que fatalmente aconteceria mais à frente.

Do outro lado, os Calheiros acusam o hoje adversário de colocar nas ruas um projeto pessoal de poder: "Nada me surpreende no Collor. Ele nunca se guia pelos valores da coerência".

As palavras são do senador Renan Calheiros, o mesmo que esteve com Dilma Rousseff (PT) e depois votou pelo seu impeachment, apoiou Michel Temer e foi o primeiro a abandonar o presidente.

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