Agricultura / Brasil 18 de julho de 2018 16h25

Brasil só será grande nação quando tratar produtor rural com orgulho

Há uma gente empreendedora e empoeirada construindo um novo Brasil nas entranhas do cerrado...

Xico Graziano
Xico Graziano

O Brasil se tornou o maior produtor de soja do mundo, igualado aos EUA. Já a China, de onde a leguminosa é nativa, virou a maior importadora mundial do grão. Como isso pode ter acontecido?

A resposta se encontra no extraordinário livro "A saga da soja no Brasil", escrito por 2 renomados pesquisadores da Embrapa. Décio Gazzoni e Amélio Dallagnol perpassam pela história produtiva da soja - que se inicia há 3 mil anos - mostrando como, no Brasil, fomos capazes de dominar o ciclo produtivo de uma planta acostumada com o frio oriental, adaptando-a ao calor tropical.

Veja que curiosa equação agronômica se resolveu. Na China, originalmente, e, depois, há 1 século, nos EUA, as lavouras de soja vigoram em terrenos cuja latitude é superior a 30° N. São regiões de clima temperado, com neve no inverno.

Essa característica inata da soja permitiu sua razoável adaptação aos solos do Rio Grande do Sul. Os gaúchos começaram a cultivá-la, a partir de 1940, em latitudes semelhantes àquelas, mas no Hemisfério Sul. Assim, durante 2 décadas, a nossa sojicultura permaneceu restrita às regiões mais frias do país.

Até que, em meados dos anos 1960, se iniciou a expansão do agro brasileiro para o Centro-Oeste. Mas havia um problema: a soja não se dava bem nos trópicos. O grande desafio da pesquisa agronômica era "quebrar" o gosto da soja pelas latitudes elevadas, fazendo-a aceitar o calor do cerrado nacional.

Acontecia que, quando levadas para as regiões mais quentes, as plantas de soja logo interrompiam seu período juvenil e, influenciadas pela forte radiação solar, paravam de crescer, iniciando seu florescimento ainda pequenas. Resultado: pouco produziam.

Os pesquisadores sabiam que era o comprimento do dia - o chamado fotoperíodo - a variável-chave dessa equação. Seu objetivo, então, foi conseguir, através do melhoramento genético, modificar o padrão de crescimento e floração das plantas. Deu certo. Alterar a indução floral da soja foi a grande mágica da ciência da terra.

Quando, a partir das pesquisas pioneiras do IAC (Instituto Agronômico de Campinas) e, mais tarde, da contribuição fundamental da Embrapa, de Londrina, se conseguiu alterar essa característica inata da soja, tudo avançou.

Retardando seu florescimento, a planta passou a crescer vigorosamente nas regiões mais quentes, formando bagas cheias de grãos. Nascia assim a agricultura tropical da soja.

O melhoramento genético era uma condição necessária, mas não suficiente. Ocorre que o cerrado brasileiro, como sabem, apresenta solos pouco férteis, arenosos e ácidos que, tomados em comparação com as terras roxas e ricas de São Paulo ou Paraná, sempre foram desprezados.

Mais uma vez, a pesquisa agronômica entrou em ação. A partir de pesquisas iniciais existentes no Paraná, a Embrapa desenvolveu um pacote tecnológico, baseado na integração de ciclos produtivos e no plantio direto - sistema conservacionista que dispensa aração e gradeação do solo - que hoje ampara a formidável expansão da agricultura pelo interior do país.

A produção nacional de soja cresceu 400 vezes desde 1960. Na safra colhida em 2017, a região do cerrado produziu 60% da soja brasileira. A produtividade média das lavouras, que era de 1 127 kg/ha (1960), saltou para 3 386 kg/ha (2017). É sensacional.

A saga da soja no Brasil, porém, não pode ser contada apenas pela ótica da tecnologia. Uma das riquezas do livro do Décio e do Amélio centra naquilo que eles denominam de "elemento gaúcho": uma feliz associação entre as maravilhas tecnológicas, que ajudaram a desenvolver, e o arrojo dos filhos dos agricultores sulistas que, naquela época, deixaram suas pequenas roças para se aventurar pelo desconhecido Brasil Central.

Esses pioneiros tiveram um papel fundamental no processo de desenvolvimento tecnológico que permitiu a ocupação do cerrado nacional. Por um lado, a Embrapa lhes ofertava tecnologia; por outro, eles a experimentavam na roça, dando à instituição de pesquisa o feedback necessário para realimentar o avanço do conhecimento científico. Inexiste boa teoria sem prática constante.

Nos EUA, a conquista do Oeste, rumo à Califórnia, ocorrida há mais tempo, se conta como uma famosa epopeia. Por aqui, essa história, ainda recente, é pouco valorizada. Mas um dia chegará.

Há uma gente empreendedora e empoeirada construindo um novo Brasil nas entranhas do cerrado. Quando você viaja à essas regiões, e conversa com os jovens, eles lhe contam com orgulho a saga de seus pais, que abriram aquelas paradas distantes do litoral. É muito legal.

Pergunto: será que os políticos, candidatos ao comando do país, têm a mínima noção dessa história de sucesso? Sabem eles que a política pública - a pesquisa em especial - pode ser determinante para os rumos futuros da agropecuária, como foi no passado?

Tenho minhas dúvidas. Mas guardo uma certeza: o Brasil somente será uma grande nação quando tratar com orgulho, e não com menosprezo, seus produtores rurais.

Com informações: Catve .

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